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6.1.17

piu piu

a máquina é nova. Pesa-me nas mãos com um peso que não me é natural. não me é familiar.
uma novidade com peso desconhecido.
ainda é um corpo estranho, e não um prolongamento. 
as minhas mãos quase que rejeitam. os dedos sentem desconforto. Procuram um obturador que já não existe e quando encontram o novo aplicam uma força familiar, mas desfasada nesse corpo estranho com peso desconhecido. 
o ano também é novo. ao contrário da máquina, estranho-o mas não o rejeito. Anseio-o.

Julgo que é assim com uma boa parte das pessoas. O emprego, a viagem, o projeto, as caminhadas vigorosas, o corte nas saturadas, a casa, o carro e por aí em diante. São novos ou novas resoluções porque o ano é novo. A novidade é boa. Estranha, mas confortável. A mente e o corpo gostam, anseiam-na. Há uma expectativa de purga, mas também de preenchimento com algo... novo.
O ano instala-se.
A rasura no último número do ano termina ao fim do primeiro mês. O Carnaval ainda é ano novo, mas a Páscoa é transição, o Verão é média idade e quando entra o Outono, o ano está esgotado.
À medida que o ano vai perdendo a sua juventude, já nada se deve ao seu início.
O último mês é um limbo. Tenta-se arrumar o que é mau no ano velho e transportar o bom para o ano novo. Revestem-se as resoluções que não se cumpriram e adicionam-se mais umas. Às vezes, principalmente quando a maioria das ambições ficaram por cumprir, as resoluções para esse novo ano novo são abolidas.

o ano já não será novo. ao contrário da máquina, o conforto começa a incomodar. começo a rejeitar.
a máquina também já não será um corpo estranho. Será um prolongamento. Um conforto feliz que permite criar. Um peso conhecido.

estes pequenos não sabem que enquanto os capturo, os dedos sentem desconforto.
ignoram-me. sou uma estranha que não querem conhecer.

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piu 
piu.

12.10.16

céu azul em dias de Outono


hoje o céu está cinzento.
cores de Outono para céu cinzento!

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26.8.16

os fins de tarde que recordam o fim dos livros


O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariza, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.
O Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel García Márquez 

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18.3.16

a Alice e os Jacintos


É a primeira vez que leio os contos de Alice Munro. Depois de "Metamorfose" de Franz Kafka e "1984" de George Orwell era dela que estava a precisar.
Uma escrita delicada, feminina e encantadoramente inteligente. Uma escrita que faz lembrar o toque dos Jacintos.
Além disso gosto de contos, têm a duração perfeita de uma pausa a meio da manhã, de um chá numa esplanada ou do compasso de espera por uma noite de sono.
Os pormenores não se diluem com tanta facilidade, tornando a mensagem intensa. Aguçada.
Acontece o mesmo quando olho os pequenos Jacintos.

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27.2.16

o maluco lírio azul


a televisão anuncia vaga de frio.
é fevereiro.
está a chover e o mercúrio não vai além de uns singelos 6 graus.
eu e minha mãe olhamos o lírio azul.
'Porque está este lírio maluco a tentar florir num dia como este?' pergunta ela entre gargalhadas.
gosto das gargalhadas dela. preenchem espaços. preenchem-me.
sinceramente não sei por que motivo tenta o maluco lírio azul florir num dia como este.
mas não tenho dúvidas, este lírio percebe a importância das coisas coloridas e bonitas num antipático dia invernoso.

Senhoras e senhores, apresento o maluco lírio azul. O primeiro do ano.

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24.2.16

atenção: post desaconselhado a pessoas que não gostam de verde


como suponho que isso é impossível, embrenhem-se numa levada.
sintam o verde, a humidade, o silêncio.
um silêncio cheio de sons.
o estalar de um ramo, os grilos. as cigarras. o canto dos pássaros.
a terra a mover-se. as formigas, as minhocas.
um pássaro que levanta voo, outro que poisa.
a água a ser levada.
uma folha que cai.
a gota de orvalho que abandona uma folha, que rola e cai numa outra.
a gota de orvalho que abandona uma folha, que rola e se entranha num pedaço de terra fresca.
a terra a absorver
a tua respiração.
não fales!
vem.
faz uma levada.

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Ilha do Faial, Açores
novembro, 2015

5.2.16

o sol.

manhãs frias com o sol a entrar em casa.
o sol.
símbolo de luz e verdade.
mas num momento oferece-te a revelação de um grão de pó, no momento seguinte uma sombra.

Quando eu era pequenino sentou-me no colo, olhou-me de frente e disse:
«Só há um pecado. O roubo... Quando dizes uma mentira, estás a roubar a alguém o direito de saber a verdade.» p.208
Quando alguém mata um homem, rouba uma vida - explicou baba. - Rouba à mulher dele um marido, um pai aos seus filhos. p.26

O Menino de Cabul, Khaled Hosseini

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1.2.16

1 de fevereiro


o ano está um mês menos novo.
não sei bem como funciona a autoridade das resoluções, mas quero acreditar que são flexíveis.
hoje escrevi as minhas.
data de início: amanhã.

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24.9.15

Bala, o obstinado


Desengane-se quem vê neste pequeno um canino pachorrento.
É um terror.
Tem como únicos objetivos de vida: comer e destruir.
Tem como principais qualidades: aspirar o chão da cozinha e saltar cercas de metro e meio.
Obstinado ao limite, corre sérios riscos de sofrer várias intoxicações alimentares. Motivo? Gula.

É bonito? sim. Perspicaz? de mais. Dá vontade de apertar as bochechas? sempre.
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14.8.15

mergulho limpo


apetecia-me um mergulho.
água gelada na pele.
o corpo todo a sentir água gelada e salgada na pele.
só água gelada e salgada.
sem pensamentos.
sem dúvidas.
sem questões.
um mergulho limpo.

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depois,
uma noite sem sonhos.

12.8.15

um girassol florido no jardim..


... buscando a luz do sol sorriu para mim.

Há muita sabedoria a retirar de um reflexo perturbado.

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