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30.9.16

nada contra tudo


Capa
Contra-capa
Luz
Contra-luz

Este vídeo, A Arte de Fazer um Livro

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Arte Poética, 1758

26.9.16

três coisas

da linha ténue que está a separar o Verão do Outono:

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1. As videiras estão pesadas, cheias, carregadas.
Ouvem-se as dornas. As cheias, as meio cheias e as vazias. Batem umas contra as outras e ouvem-se. A pouco e pouco aliviam as vinhas, mas nunca as esvaziam. As vinhas são sempre cheias.

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2. A luz de fim do dia está a mudar. As minhas sandálias amarelas, sabem disso. Sabem que à medida que a luz muda, a importância de uns pés calçados de amarelo também se esbate.
Mas atenção, nunca desvalorizo a importância de dar amarelo aos pés.

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3. Há livros que se fazem de linhas ténues e como tal devem ser lidos com a luz de uma linha ténue.
No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador. Chegou, trazendo-o pelo braço. O afinador era cego. Apontava a cabeça para cima ou para lugares onde não acontecia nada. A cabeça girava-lhe autónoma sobre o pescoço. Era mais velho do que o meu tio. Tinhas as mãos lisas. Falava pouco. Passámos horas a acertar notas em cada tecla. O afinador apertava as cordas com uma chave de prata que segurava, firme e cuidadosamente, entre os dedos. E os sons puros: nítidos no silêncio: desenhados no ar, a demorarem-se breves, a ecoarem na memória e a deixarem outro silêncio: outro silêncio: outro silêncio diferente. 
Quando por fim se ouviu uma palavra, foi o meu tio que me pediu para ir avisar o italiano. Sorri-lhe, abanei a cabeça afirmativamente e não fui capaz de dizer nada porque, dentro de mim, tinha um redemoinho infinito de música infinita.
Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto

26.8.16

os fins de tarde que recordam o fim dos livros


O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariza, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.
O Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel García Márquez 

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8.8.16

7.6.16

Moderato Cantabile


'O homem decidiu-se a regressar à cidade, para longe daquele parque. À medida que se afasta, o cheiro das magnólias diminui, cede o lugar ao do mar.
Anne Desbaresdes come um pouco de pudim gelado para que a deixem em paz.
O homem voltará involuntariamente para trás. Redescobre as magnólias, as grades, e as janelas ao longe, sempre iluminadas, sempre. Tem de novo nos lábios a canção escutada esta tarde, e na boca um nome que há de pronunciar numa voz um pouco mais alta. O homem passa diante da casa.
Ela pressente-o. A magnólia entre os seus seios murcha, percorre o verão no espaço de uma hora. O homem em breve se afastará do parque. Afastou-se. Anne Desbaresdes continua num gesto interminável a supliciar a flor.
— A Anne não ouviu.
Ela tenta alargar o sorriso, já não consegue. Repetem. Leva uma última vez a mão à desordem loura dos cabelos. As olheiras estão maiores. Chorou, esta noite. Repetem apenas para ela e esperam.'
Moderato Cantabile, Marguerite Duras 

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Aviso: Esta publicação carece de Magnólias.

17.5.16

coroa de rei a toque de alaúde


'Tudo se jogou numa fração de segundo. Rubens só a reconheceu no último momento, quando ela estava prestes a ultrapassá-lo e quando o passo seguinte os teria afastado definitivamente um do outro. Com uma prontidão excecional, estacou, voltou-se (ao que ela reagiu imediatamente) e dirigiu-lhe a palavra.
Tinha a impressão de que era ela a mulher que ele desejara durante anos, procurando-a pelo mundo todo. A cem metros dali havia um café cujas mesas se alinhavam à sombra das árvores, debaixo do céu magnificamente azul. Sentaram-se os dois frente a frente.
A mulher trazia óculos escuros. Ele pegou-lhes com dois dedos, tirou-lhos delicadamente e poisou-os em cima da mesa. Ela não tentou impedi-lo.
«Foi por causa destes óculos», disse ele, «que eu por pouco não a reconhecia.»
Beberam água mineral, sem conseguirem tirar os olhos um do outro. Ela estava em Roma com o marido e só tinha uma hora. Ele sabia que, se as circunstâncias o permitissem, teriam feito amor naquele mesmo dia, naquele mesmo instante.
Como se chamava ela? Que nome tinha? Rubens esquecera-se e achou impossível perguntar-lho. Contou-lhe (com inteira sinceridade) que, durante todo o tempo de separação entre ambos, tivera a impressão de estar à espera dela. Como poderia confessar-lhe que não sabia o seu nome?
Depois disse: — Sabe como é que nós lhe chamávamos?
— Não.
— A tocadora de alaúde.
— Porquê a tocadora de alaúde?
— Porque você era delicada como um alaúde. Fui eu que inventei esse nome por si.
Sim, fora ele quem o inventara. Não na altura em que por um tempo muito breve a conhecera, mas agora, no parque da Villa Borghese, porque precisava de um nome para falar com ela; e porque a achava delicada e elegante e doce como um alaúde.'
a imortalidade, Milan Kundera 

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A coroa de rei abriu há uma semana. Alcançou a imortalidade.

4.5.16

antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer: que tolice.


Sandra
Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevi-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era de mais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou.
E, no entanto, nesta casa vazia e enorme, no silêncio da Terra que me aturde, é essa adolescência que regressa, e com ela a tua face séria e doce. Escrever-te. Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação. Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar. Podia no entanto lembrar-te em tanta situação da vida que nos coube. No dia em que a Xana nasceu. Numa praia iluminada do Sul. Na noite em que conheci a ternura do teu corpo. Na tarde em que me disseste sim, podemos experimentar. Nos intervalos da nossa monotonia que também houve. No difícil da vida para ela se cumprir toda. Na tua morte. Escrever-te, escrever-te. Talvez te conte do muito que não contei e tu me não digas que tolice. (...) 
Em tanto lugar eu poderia lembrar-te. Mas volto sempre ao começo da irradiação de ti. Há assim um pacto obscuro entre tudo o que foste até à morte e a eternidade da tua juventude. Porque é lá que tu moras, no incorruptível, no intocável do teu ser, na perfeição que um deus achou enfim perfeita quando te entregou à vida para existires por ti. Mas como seres jovem e eu conhecer-te, fora da cidade do Sol? da colina desdobrada à sua luz? do espaço de um acorde de guitarra a toda a volta no ar? É bom poder dizer-te quanto te lembro aí. E te quero. É bom não poderes dizer-me que tolice. Ou fitares-me apenas com o teu olhar severo e vivacíssimo. Ou repetires-me que eu não cresci desde a adolescência e isso ser o bom sabor de uma oculta verdade em mim, para não ser um adulto regrado e quotidiano. É bom poder dizer-te tudo e tu agora não poderes dizer nada, para esse meu tudo ser tudo.
Às vezes eu pensava que tu não fazias ideia do incrível e maravilhoso de ti. Estavas dentro e o teu esplendor estava fora. Nesta casa deserta, como é bom estares aqui comigo. E falar-te. E escrever-te. E ver-te. Voltarei ainda a amar-te? Voltará o impossível de ti quando eu o evocar? Escrever-te. E dizer-te tudo o que nunca deixaste que te dissesse e devia ser a insensatez que tu dizias. É Inverno, há já neve na serra, mas o céu está cheio de azul. Devias gostar de ver, mesmo sendo da cidade, onde o céu não existe. Devias gostar de ver, mesmo que olhasses distraída e apenas sorrisses em tolerância leve. O frio veio com a neve e a Deolinda acendeu-me a braseira logo de manhã. É um frio que nunca conheceste e eu te não sei explicar. Límpido, todo em arestas finas, qualquer coisa assim. Aqueço os pés e penso em ti. Mas é tão difícil dizer-te quanto penso nas palavras que escrevo. (...)
Lembro-me é de quando na nossa primeira noite eu te disse que te amava e tu disseste também te amo. Hei-de lembrar-me decerto ainda de quantas outras palavras me disseste. Mas agora quero ouvir apenas essa tua palavra ardente em que toda a vida se me consumiu. E do sim gentil no pátio da Universidade e em que tudo começou. Também te amo. Sim. E é estranho como uma vida inteira se me resuma a uma palavra. Possivelmente por ser a única a dizer tudo o que valeu a pena saber. E se resuma também à tua imagem, no instantâneo do teu passar. E agora que tudo findou, penso que a perfeição do teu destino no meu seria ouvir-te ainda uma vez, de passagem, também te amo. Uma vez ainda. Ainda. Assim eu te escrevo para te demorares um pouco. Talvez voltes a dizer-mo. E eu a ti. Voltarei a escrever-te? Para voltares a existir no que escrevo de ti. Demora-te hoje ao menos ainda um momento. Para olharmos a neve na montanha, os campos desertos, ouvirmos em nós o silêncio do mundo. Xana disse-me há tempos - qualquer dia dou aí um salto. Mas não deu. Montei um telefone para ir a algum lado sem ir e ela agora aproveita para vir também sem vir. Estás bom? estás fino? é o que importa. E desliga. Escreveu uma vez mas não adiantou mais nada. Um dia dou aí um salto, disse. E eu tenho estado à espera. E que é que ela poderia dizer-me? Os jovens dizem tudo tão cedo, querida, e ficam em silêncio tão cedo. Não é maravilhoso estar ainda contigo? E escrever-te ainda, escrever-te. Talvez. Recriar-te no imaginário a figura gentil que não mais voltarei a ver. Sandra. A tua juventude que mora na eternidade, onde para sempre me ficou. Mesmo quando já envelhecíamos e a filha cresceu e se foi. Porque eu olhava-te e o que via à transparência dos anos acumulados era essa juventude que ficara em ti e era o eterno do teu ser. Aí está agora definitivamente - como poderia eu reconhecer-te no tempo que ainda houve? É-se eterno dentro de nós. Mas a tua eternidade mora também na tua imagem, na frágil harmonia do teu corpo que conheci.
A tarde apaga-se lenta, a Deolinda deve estar a vir aquecer-me o jantar. E eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. Não digas. Se te sentasses aqui à braseira. E se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noite que desce. Em silêncio. Não te dizer mais nada. E tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. E sorrires.
Paulo
Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira 

Às vezes parar é tudo. Parar e ouvir Pedro Lamares a ler excertos desta carta. Aqui, a partir do minuto 20.54
Ouçam. Ouvir é tudo.

18.3.16

a Alice e os Jacintos


É a primeira vez que leio os contos de Alice Munro. Depois de "Metamorfose" de Franz Kafka e "1984" de George Orwell era dela que estava a precisar.
Uma escrita delicada, feminina e encantadoramente inteligente. Uma escrita que faz lembrar o toque dos Jacintos.
Além disso gosto de contos, têm a duração perfeita de uma pausa a meio da manhã, de um chá numa esplanada ou do compasso de espera por uma noite de sono.
Os pormenores não se diluem com tanta facilidade, tornando a mensagem intensa. Aguçada.
Acontece o mesmo quando olho os pequenos Jacintos.

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25.2.16

para hoje


três coisas aleatórias:

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1. O voo de pombas decididas.

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2. O "nosso" colorido Palácio da Pena.

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3. 1984
Dos livros que sabe (infinitamente) bem conquistar.

'Tornou a espreitar o seu rival no cubículo em frente. Alguma coisa lhe dizia, sem margem para dúvidas, que Tillotson estava empenhado na mesma tarefa que ele. Não havia meio de saber qual das versões viria a ser finalmente adoptada, mas Winston tinha a profunda convicção de que seria a sua. O camarada Ogilvy, cuja existência nem se imaginava uma hora antes, surgira afinal como uma realidade. Chocou-o poder criar homens mortos, mas não vivos. O camarada Olgilvy, que  nunca existira no presente, existia agora no passado, e quando o acto de falsificação estivesse esquecido, existiria tão autenticamente, e com as mesmas provas documentais, como Carlo Magno ou Júlio César.'

5.2.16

o sol.

manhãs frias com o sol a entrar em casa.
o sol.
símbolo de luz e verdade.
mas num momento oferece-te a revelação de um grão de pó, no momento seguinte uma sombra.

Quando eu era pequenino sentou-me no colo, olhou-me de frente e disse:
«Só há um pecado. O roubo... Quando dizes uma mentira, estás a roubar a alguém o direito de saber a verdade.» p.208
Quando alguém mata um homem, rouba uma vida - explicou baba. - Rouba à mulher dele um marido, um pai aos seus filhos. p.26

O Menino de Cabul, Khaled Hosseini

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