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4.8.19

dias

enganaram-me.
disseram-me que todos os dias, cada dia, são um dia em branco.
não é verdade.
o início de um dia não é branco. muito menos se parece com uma folha lisa ou com um céu sem nuvens.
cada dia novo, que não é branco, nem liso, nem limpo, começa com o peso de todos os dias que lhe antecederam.
e é por isso que envelhecemos.. são os dias a pesarem-se e a pesarem-nos.
às vezes, ou quase sempre, carregamos o peso dos dias como um fardo invisível.
outras, esse peso materializa-se, ganha forma e, ainda que seja ilusório, parece pesar mais.
por isso concordo.
deviam existir dias paralelos.
dias como imaculadas folhas brancas. limpas. lisas.
paralelos porque numa lógica estritamente matemática jamais se tocariam com os dias do dia-a-dia e por isso seriam leves e descomprometidos com o peso de todos os que o sucederam.
mas talvez também por isso, seja melhor assim. não existir dias paralelos, desmemoriados e necessariamente sem peso.
por isso seguimos com o peso dos dias, que às vezes tal como uma bela tarde de outono dão tréguas e tornam ainda mais bonito o pôr-do-sol.

enganaram-me.
mas há dias em que tudo está bem e com a luz certa.. são quase brancos.



30.9.16

nada contra tudo


Capa
Contra-capa
Luz
Contra-luz

Este vídeo, A Arte de Fazer um Livro

1 12 4 3 2 10 7 13 9 8 11

Arte Poética, 1758

5.9.16

bom dia, flor do dia


1

e ainda:

1. A voz, a vida e força da Mulher do Fim do Mundo
2. A questão: Para onde foram as andorinhas?
3. Este Saturday Night, mesmo não sendo sábado

4.5.16

antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer: que tolice.


Sandra
Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevi-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era de mais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou.
E, no entanto, nesta casa vazia e enorme, no silêncio da Terra que me aturde, é essa adolescência que regressa, e com ela a tua face séria e doce. Escrever-te. Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação. Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar. Podia no entanto lembrar-te em tanta situação da vida que nos coube. No dia em que a Xana nasceu. Numa praia iluminada do Sul. Na noite em que conheci a ternura do teu corpo. Na tarde em que me disseste sim, podemos experimentar. Nos intervalos da nossa monotonia que também houve. No difícil da vida para ela se cumprir toda. Na tua morte. Escrever-te, escrever-te. Talvez te conte do muito que não contei e tu me não digas que tolice. (...) 
Em tanto lugar eu poderia lembrar-te. Mas volto sempre ao começo da irradiação de ti. Há assim um pacto obscuro entre tudo o que foste até à morte e a eternidade da tua juventude. Porque é lá que tu moras, no incorruptível, no intocável do teu ser, na perfeição que um deus achou enfim perfeita quando te entregou à vida para existires por ti. Mas como seres jovem e eu conhecer-te, fora da cidade do Sol? da colina desdobrada à sua luz? do espaço de um acorde de guitarra a toda a volta no ar? É bom poder dizer-te quanto te lembro aí. E te quero. É bom não poderes dizer-me que tolice. Ou fitares-me apenas com o teu olhar severo e vivacíssimo. Ou repetires-me que eu não cresci desde a adolescência e isso ser o bom sabor de uma oculta verdade em mim, para não ser um adulto regrado e quotidiano. É bom poder dizer-te tudo e tu agora não poderes dizer nada, para esse meu tudo ser tudo.
Às vezes eu pensava que tu não fazias ideia do incrível e maravilhoso de ti. Estavas dentro e o teu esplendor estava fora. Nesta casa deserta, como é bom estares aqui comigo. E falar-te. E escrever-te. E ver-te. Voltarei ainda a amar-te? Voltará o impossível de ti quando eu o evocar? Escrever-te. E dizer-te tudo o que nunca deixaste que te dissesse e devia ser a insensatez que tu dizias. É Inverno, há já neve na serra, mas o céu está cheio de azul. Devias gostar de ver, mesmo sendo da cidade, onde o céu não existe. Devias gostar de ver, mesmo que olhasses distraída e apenas sorrisses em tolerância leve. O frio veio com a neve e a Deolinda acendeu-me a braseira logo de manhã. É um frio que nunca conheceste e eu te não sei explicar. Límpido, todo em arestas finas, qualquer coisa assim. Aqueço os pés e penso em ti. Mas é tão difícil dizer-te quanto penso nas palavras que escrevo. (...)
Lembro-me é de quando na nossa primeira noite eu te disse que te amava e tu disseste também te amo. Hei-de lembrar-me decerto ainda de quantas outras palavras me disseste. Mas agora quero ouvir apenas essa tua palavra ardente em que toda a vida se me consumiu. E do sim gentil no pátio da Universidade e em que tudo começou. Também te amo. Sim. E é estranho como uma vida inteira se me resuma a uma palavra. Possivelmente por ser a única a dizer tudo o que valeu a pena saber. E se resuma também à tua imagem, no instantâneo do teu passar. E agora que tudo findou, penso que a perfeição do teu destino no meu seria ouvir-te ainda uma vez, de passagem, também te amo. Uma vez ainda. Ainda. Assim eu te escrevo para te demorares um pouco. Talvez voltes a dizer-mo. E eu a ti. Voltarei a escrever-te? Para voltares a existir no que escrevo de ti. Demora-te hoje ao menos ainda um momento. Para olharmos a neve na montanha, os campos desertos, ouvirmos em nós o silêncio do mundo. Xana disse-me há tempos - qualquer dia dou aí um salto. Mas não deu. Montei um telefone para ir a algum lado sem ir e ela agora aproveita para vir também sem vir. Estás bom? estás fino? é o que importa. E desliga. Escreveu uma vez mas não adiantou mais nada. Um dia dou aí um salto, disse. E eu tenho estado à espera. E que é que ela poderia dizer-me? Os jovens dizem tudo tão cedo, querida, e ficam em silêncio tão cedo. Não é maravilhoso estar ainda contigo? E escrever-te ainda, escrever-te. Talvez. Recriar-te no imaginário a figura gentil que não mais voltarei a ver. Sandra. A tua juventude que mora na eternidade, onde para sempre me ficou. Mesmo quando já envelhecíamos e a filha cresceu e se foi. Porque eu olhava-te e o que via à transparência dos anos acumulados era essa juventude que ficara em ti e era o eterno do teu ser. Aí está agora definitivamente - como poderia eu reconhecer-te no tempo que ainda houve? É-se eterno dentro de nós. Mas a tua eternidade mora também na tua imagem, na frágil harmonia do teu corpo que conheci.
A tarde apaga-se lenta, a Deolinda deve estar a vir aquecer-me o jantar. E eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. Não digas. Se te sentasses aqui à braseira. E se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noite que desce. Em silêncio. Não te dizer mais nada. E tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. E sorrires.
Paulo
Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira 

Às vezes parar é tudo. Parar e ouvir Pedro Lamares a ler excertos desta carta. Aqui, a partir do minuto 20.54
Ouçam. Ouvir é tudo.

14.1.16

Tenho ido a Cabul


Estas últimas noites fui a Cabul.
Gosto da facilidade e propriedade com que o digo.
A primeira vez que fui a Cabul estava nos Açores. Lembro-me especialmente de Cabul naquela travessia entre o Faial e o Pico.
Não posso dizer que estas viagens estejam a ser serenas. Chego sempre abalada. Pensativa. Não é só o choque cultural, é o frente a frente com a crueza que nos faz humanos. Uma crueza que ultrapassa culturas e fronteiras como se à nascença nos tivesse sido gravada na pele com ferros invisíveis.
Em dezembro estive na América, mais precisamente em Newark. Na América dos anos 60. Na América de Philip Roth. Desconcertante a América de Philip Roth.
Vou voltar lá, sei disso.
Em 2014, novembro, aterrei na Islândia. Senti os ventos do norte no rosto e vi - com os meus olhos de um castanho banal - uma cortina de seda bordada com verdes e azuis impossíveis. Dançava uma valsa silenciosa num céu profundo enquanto me esfregava na cara que ainda vi tão pouco. Se algum dia tiver uma filha, chamar-se-á Aurora.
Não esperava voltar lá tão cedo, mas em Janeiro de 2015 estava de regresso. Foi uma viagem bem mais em conta e levei como bagagem o conforto do meu sofá. A Islândia da Halla e de Sigridur. Sigridur, a criança bonsai. A Islândia de Valter Hugo Mãe a escavar fundo no meu coração e a chegar ao topo da minha prateleira. Ainda bem que li A Desumanização em Janeiro, assim fica mesmo e intocavelmente no topo.
A partir daqui não consigo precisar cronologicamente. Houve Istambul e Lahore.
Houve uma Paris submissa uns anos à frente. A Paris de Michel Houllebecq. Explorei o delta do Nilo com o Gordiano de Steven Saylor, uns anos atrás.
Fiz o Expresso do Oriente com o pequeno belga de bigodes sem mácula, Hercule Poirot. Ainda não percebo como me estava a faltar este.
Caminhei pela Lisboa de Saramago com um toque de Pessoa e perdi-me nos recantos ainda mais perdidos da América do Sul. Gabriel García Marquez nunca dá as coordenadas exatas, mas desconfio que seja Colômbia. Conheci Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino. Dissequei a hierarquia da família Buendía e ri com a mítica frase de um Alcaide sem nome: "Não me fodam com os papelinhos".
Corri o Japão de Comboio. Uma peregrinação com cor na companhia de Haruki Murakami. Cor soa a amor. Sputnik, meu amor.
Reencontrei Juliet Marillier. Procurarei sempre o poder encantatório das florestas da Irlanda Celta.
Mágicas. Misteriosas.
Por fim, em qualquer lugar, Gonçalo M. Tavares.

2015, agora que penso mais profundamente, foi um bom ano de viagens.

2 3 3

A propósito.
De todas as listas infinitamente possíveis, sei que esta vale a pena.



17.7.15

às sextas, o Mundo


1. Dicas de composição do Grande Steve McCurry

2. Occupation: crazy. A Eleanor, o projeto, o vídeo. Fascinante

3. Dictomias, tão menina rapaz

4. Amor de António Mega Ferreira:

' Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.
E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.
Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade. Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.
Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.
Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar. É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente. 
Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto, é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim. (E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim.
És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.) '

26.6.15

às sextas: o Mundo


o apego vs amor. 
o motivo porque falhamos tanto.
Desconcertante.

23.6.15

coisas simples


e uma enorme rede de partilha de fotografias bonitas, aqui.
também há site.

1 2 4

12.6.15

às sextas: o Mundo

COMO DIZER POESIA de Leonard Cohen 
A tradução de Vasco Gato e a voz deliciosa do (charmoso) Pedro Lamares, tudo no viciante programa Literatura Agora.

Os 20 episódios disponíveis aqui
Este texto no episódio 1 a partir do minuto 21.38

Tomemos a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer com que a voz pese menos de um grama nem dotá-la de asinhas poeirentas. Não é preciso inventar um dia de sol nem um campo de narcisos. Não é preciso estar-se apaixonado, nem estar-se apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Existe a palavra e existe a borboleta. Se confundires estas duas coisas darás razão a quem queira rir-se de ti. Não atribuas grande importância à palavra. Estarás a tentar insinuar que amas as borboletas de uma forma mais perfeita do que qualquer outra pessoa, ou que compreendes a sua natureza? A palavra borboleta não passa de informação. Não é uma oportunidade para pairares, levitares, aliares-te às flores, simbolizares a beleza e a fragilidade, nem de modo nenhum personificares uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes tirar os pés do chão ao falares de voar. Nunca feches os olhos, tombando a cabeça para um dos lados, ao falares da morte. Não fixes em mim os teus olhos ardentes ao falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor mete a mão no bolso ou por baixo do vestido e toca-te. Se a ambição e a sede de aplausos te levaram a falar de amor deverás aprender a fazê-lo sem te envergonhares a ti mesmo nem às tuas fontes.Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a actuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues.Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. Respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da actuação é dizê-las. A disciplina da actuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas. O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal. Toda essa treta relacionada com os bandidos do amor. Vocês são estudantes da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição.Diz as palavras com a exacta precisão com que verificas uma lista de roupa suja. Não te comovas com a blusa de renda. Não fiques de pau feito ao dizer cuecas. Não te arrepies todo só por causa da toalha. Os lençóis não deverão suscitar à volta dos olhos uma expressão sonhadora. Não é preciso chorar agarrado a um lenço. As meias não estão lá para te recordar viagens estranhas e longínquas. É só a tua roupa suja. São só as tuas peças de roupa. Não espreites através delas. Veste-as.O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e deres cabo dele com nobres intenções, então não serás melhor do que os políticos que desprezas. Não passarás de uma pessoa a agitar uma bandeira e a realizar o apelo mais reles a uma espécie de patriotismo emocional. Pensa nas palavras como sendo ciência e não arte. Elas são um relatório. Tu estás a falar num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. As pessoas que tens à tua frente conhecem todos os riscos do montanhismo. Honram-te partindo desse princípio. Se lhes esfregares isso na cara, será um insulto à sua hospitalidade. Fala-lhes da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê rigoroso em relação às superfícies e ao tempo que demoraste a escalá-la. Não manipules o público à caça de bocas abertas e suspiros. Se mereceres as bocas abertas e os suspiros, isso não se deverá à avaliação que fizeres do acontecimento, mas à que o público fizer. Resultará da estatística e não do tremer da tua voz nem das tuas mãos a cortar o ar. Resultará dos dados e da discreta organização da tua presença.Evita os floreados. Não tenhas medo da fraqueza. Não tenhas vergonha do cansaço. O cansaço dá-te bom ar. O ar de quem seria capaz de nunca mais parar. Agora, entrega-te aos meus braços. Tu és a imagem da minha beleza.

5.6.15

às sextas: o Mundo

A Indonésia e a estranha relação com os cigarros. Uma imagem tão distante, tão ocidentalmente chocante. 
Por Michelle Siu, na série Marlboro Boys. Aqui.

Dihan smokes as his mother breastfeeds his brother. His father smokes and grows tobacco. His mother occasionally smoked when she was pregnant with Dihan. © Michelle Siu

29.5.15

29.8.13


'In truth we never talk about a book unto itself; a whole set of books always enters the discussion through the portal of a single title, which serves as a temporary symbol for a complete conception of culture. In every such discussion, our inner libraries — built within us over the years and housing all our secret books — come into contact with the inner libraries of others, potentially provoking all manner of friction and conflict. 
For we are more than simple shelters for our inner libraries; we are the sum of these accumulated books. Little by little, these books have made us who we are, and they cannot be separated from us without causing us suffering.'


Coisas maravilhosas, aqui.

21.6.13

supermoon

Se fosse possível dizer por palavras o quão a lua é fascinante... então ela não seria assim tão fascinante.

Dia 23, fiquem atentos!
*




16.1.13


 (...) "Habitamos um país que vive de costas voltadas a si mesmo, num país de minifúndios, de muros, de maus vizinhos do lado. 
 
As empresas portuguesas estão cheias de pessoas importantes, inacessíveis, incontornavelmente ocupadas. As empresas portuguesas querem viver no e do mercado nacional, mas estão fechadas dentro de si e impermeáveis a ideias novas. As empresas portuguesas e aqueles que têm sentados nas suas cadeiras, não conhecem sequer, na maior parte dos casos, a cordialidade da resposta. O mal deste país não é dos políticos nem das políticas. É da cultura de um povo." (...)

Mais aqui, Deixa Entrar o Sol

12.12.12