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15.1.16

Alex, o furacão.


Hoje, enquanto comia bacalhau cozido com grão de bico banhado em azeite, ouvia uma jornalista a falar sobre o Alex.
Parecia-me quase decepcionada. Dizia ela que o pior nem era o vento, era a água e mesmo assim não estava a provocar tantos estragos como uma tempestade que houve em dezembro.
Talvez esteja a ser maliciosa.
A cebola era áspera. Ainda sinto o sabor na boca apesar de já ter lavado os dentes duas vezes.

No café, Alex continuava a ecoar-me na mente como se fosse um pensamento inacabado. As ilhas atraem-me. Então lembrei-me de uma frase de José Saramago:


'O pior que têm as ilhas é quando se põem a imitar o mar que as rodeia.
Cercadas, cercam.'
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Ilha do Pico. Açores.
novembro, 2015

22.7.15

o lar


O lugar onde abrigados pelo conforto das paredes, despimos as camadas de proteção que colocamos à saída, sem que disso nos apercebamos. Despojamos os escudos e os sapatos. Gerimos intimidades. Asseamos o "eu". Somos mais puros, mais nós.
O lar é a materialização em bruto do que temos, gostamos e escondemos. É uma gaveta aberta cheia de gavetas fechadas que só deixam à vista o que através do olhar não nos desassossega a alma.
A casa do José e a Pilar tem muitas gavetas fechadas, que apesar de já não ser propriamente um lar, ainda tem muito deles. Consegui ver o José a fazer uma sesta ou sentado no cadeirão a olhar a Pilar. E ela, numa deliciosa ginástica de amor, a pendurar atrás da porta as oferendas de que não gostava, mas que ele fazia questão de expôr.
Livros, recordações, objetos com histórias, quadros, flores, fotografias. 
Fotografias.

'Sobre a fotografia: 
As mãos levantam a câmara fotográfica à altura dos olhos e o mundo desaparece.
Agora, por trás do visor, o olho fará reaparecer, não o mundo, mas um fragmento dele.
Por isso talvez seja correto afirmar que o olho que vê a fotografia, justamente por ser fotografia o que vê, não é o mesmo, ainda que o mesmo seja, que olhou e viu uma parte do mundo para fotografá-la.'
 José Saramago

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15.4.15

o José também não tinha bons sonos...


Ricardo Reis vai aos jornais, ontem tomou nota das direções, antes de se deitar, afinal não foi dito que dormiu mal, estranhou a cama ou estranhou a terra, quando se espera o sono no silêncio de um quarto alheio, ouvindo chover na rua, tomam as coisas a sua verdadeira dimensão, são todas grandes, graves, pesadas, enganadora é sim a luz do dia, faz da vida uma sombra apenas recortada, só a noite é lúcida, porém o sono a vence, talvez para o nosso sossego e descanso, paz à alma dos vivos. 

O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago 


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Parte II

8.4.15

o José também não tinha bons sonos...


(....) Mal conseguia crer que entre as quimeras, as verdadeiras, as mitológicas, aquelas que vomitavam chamas e tinham a cabeça de um leão, a cauda de um drago e o corpo de uma cabra, porque essa também poderia haver sido a figura em que se mostrassem os flácidos monstros da insónia, mal podia crer que a tivesse atormentado, como uma tentação imprópria, para não dizer indecente, a imagem de outro homem que ela não teria necessidade de despir para saber como seria fisicamente, da cabeça aos pés, todo ele, a seu lado dorme igual. Não se censurou porque aquelas ideias em realidade não lhe pertenciam, tinham sido o fruto equívoco de uma imaginação que, sacudida por uma emoção violenta e fora do comum, saltara dos carris, o que conta é que está lúcida e alerta neste momento, senhora dos seus pensamentos e do seu querer, as alucinações da noite, sejam as da carne, sejam as do espírito, sempre se dissiparam no ar com as primeiras claridades da manhã, essas que reordenam o mundo e o recolocam na sua órbita de sempre, reescrevendo de cada vez os livros da lei.

O Homem Duplicado, José Saramago  


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Parte I

26.3.15

que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote?


Fuerteventura é toda secura e brutalidade, ao passo que Lanzarote, mesmo quando nos parece inquietante, ameaçador; mostra um certo ar de doçura feminina, o mesmo que, apesar de tudo, teria Lady Macbeth enquanto dormia.
José Saramago