Mostrar mensagens com a etiqueta Khaled Hosseini. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Khaled Hosseini. Mostrar todas as mensagens

5.2.16

o sol.

manhãs frias com o sol a entrar em casa.
o sol.
símbolo de luz e verdade.
mas num momento oferece-te a revelação de um grão de pó, no momento seguinte uma sombra.

Quando eu era pequenino sentou-me no colo, olhou-me de frente e disse:
«Só há um pecado. O roubo... Quando dizes uma mentira, estás a roubar a alguém o direito de saber a verdade.» p.208
Quando alguém mata um homem, rouba uma vida - explicou baba. - Rouba à mulher dele um marido, um pai aos seus filhos. p.26

O Menino de Cabul, Khaled Hosseini

1 3 2

14.1.16

Tenho ido a Cabul


Estas últimas noites fui a Cabul.
Gosto da facilidade e propriedade com que o digo.
A primeira vez que fui a Cabul estava nos Açores. Lembro-me especialmente de Cabul naquela travessia entre o Faial e o Pico.
Não posso dizer que estas viagens estejam a ser serenas. Chego sempre abalada. Pensativa. Não é só o choque cultural, é o frente a frente com a crueza que nos faz humanos. Uma crueza que ultrapassa culturas e fronteiras como se à nascença nos tivesse sido gravada na pele com ferros invisíveis.
Em dezembro estive na América, mais precisamente em Newark. Na América dos anos 60. Na América de Philip Roth. Desconcertante a América de Philip Roth.
Vou voltar lá, sei disso.
Em 2014, novembro, aterrei na Islândia. Senti os ventos do norte no rosto e vi - com os meus olhos de um castanho banal - uma cortina de seda bordada com verdes e azuis impossíveis. Dançava uma valsa silenciosa num céu profundo enquanto me esfregava na cara que ainda vi tão pouco. Se algum dia tiver uma filha, chamar-se-á Aurora.
Não esperava voltar lá tão cedo, mas em Janeiro de 2015 estava de regresso. Foi uma viagem bem mais em conta e levei como bagagem o conforto do meu sofá. A Islândia da Halla e de Sigridur. Sigridur, a criança bonsai. A Islândia de Valter Hugo Mãe a escavar fundo no meu coração e a chegar ao topo da minha prateleira. Ainda bem que li A Desumanização em Janeiro, assim fica mesmo e intocavelmente no topo.
A partir daqui não consigo precisar cronologicamente. Houve Istambul e Lahore.
Houve uma Paris submissa uns anos à frente. A Paris de Michel Houllebecq. Explorei o delta do Nilo com o Gordiano de Steven Saylor, uns anos atrás.
Fiz o Expresso do Oriente com o pequeno belga de bigodes sem mácula, Hercule Poirot. Ainda não percebo como me estava a faltar este.
Caminhei pela Lisboa de Saramago com um toque de Pessoa e perdi-me nos recantos ainda mais perdidos da América do Sul. Gabriel García Marquez nunca dá as coordenadas exatas, mas desconfio que seja Colômbia. Conheci Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino. Dissequei a hierarquia da família Buendía e ri com a mítica frase de um Alcaide sem nome: "Não me fodam com os papelinhos".
Corri o Japão de Comboio. Uma peregrinação com cor na companhia de Haruki Murakami. Cor soa a amor. Sputnik, meu amor.
Reencontrei Juliet Marillier. Procurarei sempre o poder encantatório das florestas da Irlanda Celta.
Mágicas. Misteriosas.
Por fim, em qualquer lugar, Gonçalo M. Tavares.

2015, agora que penso mais profundamente, foi um bom ano de viagens.

2 3 3

A propósito.
De todas as listas infinitamente possíveis, sei que esta vale a pena.




E então, das negras espirais da memória, erguem-se duas linhas de poesia, a ode de adeus de Babi a Cabul: 
Não se podem contar as luas que brilham sobre os seus telhados,
Nem os mil sóis resplandecentes
que se escondem por trás dos seus muros.

Mil Sóis Resplandecentes, Khaled Hosseini

2.12.15

dezembro, chegámos ao mesmo tempo.


'Virou-se de lado no sofá, esforçando-se por recordar algo: a certa altura, quando se encontravam no chão, Tariq apoiara a testa na dela. Depois ofegara qualquer coisa, Estou a magoar-te? ou Isto está a magoar-te? 
Laila não conseguia decidir qual das frases ele dissera.  
Estou a magoar-te? 
Isto está a magoar-te? 
Só duas semanas desde que ele partira, e já começava a acontecer. O tempo embotava as pontas dessas recordações aguçadas. Laila insistiu mentalmente. O que dissera ele? De repente, parecia-lhe vital saber. 
Cerrou os olhos. Concentrou-se. 
Com o passar do tempo, cansar-se-ia lentamente desse exercício. Acharia cada vez mais fatigante invocar, desempoeirar, ressuscitar uma vez mais o que morrera havia muito. De facto, chegaria um dia, anos mais tarde, em que Laila deixaria de chorar a sua perda. Ou, pelo menos, não o faria tão inexoravelmente; nem pouco mais ou menos. Chegaria um dia em que os pormenores do rosto dele começariam a escapar ao punho da memória, em que ouvir na rua uma mãe chamar o filho Tariq já não a deixaria perdida. Não sentiria a falta dele como agora, em que o tormento da sua ausência era uma companhia constante, como a dor fantasma de uma amputação. 
Só lá muito ocasionalmente, quando Laila fosse já uma mulher adulta, a passar uma camisa ou a empurrar os filhos num baloiço, é que algo trivial, talvez a tepidez de uma carpete sob os pés num dia quente ou a curva da testa de um estranho, desencadearia uma recordação dessa tarde juntos. E tudo lhe ocorreria de repente. A espontaneidade. A surpreendente imprudência. A inépcia. A dor do acto, o prazer, a tristeza. O calor dos seus corpos entrelaçados. 
E essa memória invadi-la-ia, tirando-lhe a respiração.
Mas depois passaria. O momento passaria. Deixando-a vazia, sem sentir nada excepto uma vaga inquietação. 
Decidiu que ele tinha dito Estou a magoar-te?   
Sim. Fora isso. Laila sentiu-se feliz por ter recordado.' 

Mil Sóis Resplandecentes, Khaled Hosseini 

mil sóis resplandescentes

Na travessia entre a ilha do Faial e a ilha do Pico ainda não sabia que Laila ia reencontrar Tariq.
Na travessia entre a ilha do Faial e a ilha do Pico enquanto sentia os efeitos da ondulação no meu estômago frágil, e procurava um Sol num dia nublado, relembrei a mim mesma o quanto desejo e gosto de finais felizes.
Essa coisa tão chata e convencional que é gostar de finais felizes.