
'O homem decidiu-se a regressar à cidade, para longe daquele parque. À medida que se afasta, o cheiro das magnólias diminui, cede o lugar ao do mar.
Anne Desbaresdes come um pouco de pudim gelado para que a deixem em paz.
O homem voltará involuntariamente para trás. Redescobre as magnólias, as grades, e as janelas ao longe, sempre iluminadas, sempre. Tem de novo nos lábios a canção escutada esta tarde, e na boca um nome que há de pronunciar numa voz um pouco mais alta. O homem passa diante da casa.
Ela pressente-o. A magnólia entre os seus seios murcha, percorre o verão no espaço de uma hora. O homem em breve se afastará do parque. Afastou-se. Anne Desbaresdes continua num gesto interminável a supliciar a flor.
— A Anne não ouviu.
Ela tenta alargar o sorriso, já não consegue. Repetem. Leva uma última vez a mão à desordem loura dos cabelos. As olheiras estão maiores. Chorou, esta noite. Repetem apenas para ela e esperam.'

'Tudo se jogou numa fração de segundo. Rubens só a reconheceu no último momento, quando ela estava prestes a ultrapassá-lo e quando o passo seguinte os teria afastado definitivamente um do outro. Com uma prontidão excecional, estacou, voltou-se (ao que ela reagiu imediatamente) e dirigiu-lhe a palavra.
Tinha a impressão de que era ela a mulher que ele desejara durante anos, procurando-a pelo mundo todo. A cem metros dali havia um café cujas mesas se alinhavam à sombra das árvores, debaixo do céu magnificamente azul. Sentaram-se os dois frente a frente.
A mulher trazia óculos escuros. Ele pegou-lhes com dois dedos, tirou-lhos delicadamente e poisou-os em cima da mesa. Ela não tentou impedi-lo.
«Foi por causa destes óculos», disse ele, «que eu por pouco não a reconhecia.»
Beberam água mineral, sem conseguirem tirar os olhos um do outro. Ela estava em Roma com o marido e só tinha uma hora. Ele sabia que, se as circunstâncias o permitissem, teriam feito amor naquele mesmo dia, naquele mesmo instante.
Como se chamava ela? Que nome tinha? Rubens esquecera-se e achou impossível perguntar-lho. Contou-lhe (com inteira sinceridade) que, durante todo o tempo de separação entre ambos, tivera a impressão de estar à espera dela. Como poderia confessar-lhe que não sabia o seu nome?
Depois disse: — Sabe como é que nós lhe chamávamos?
— Não.
— A tocadora de alaúde.
— Porquê a tocadora de alaúde?
— Porque você era delicada como um alaúde. Fui eu que inventei esse nome por si.
Sim, fora ele quem o inventara. Não na altura em que por um tempo muito breve a conhecera, mas agora, no parque da Villa Borghese, porque precisava de um nome para falar com ela; e porque a achava delicada e elegante e doce como um alaúde.'



